Moro no subúrbio recifense num bairro de classe média em que todos devem ter certo cuidado ao abrir o portão, sair de casa, etc. Nada diferente de qualquer bairro, cidade, metrópole brasileira. Hoje estava indo comprar algumas coisas que faltavam em casa. Logo, fui num mercadinho que fica aqui perto. Ao acabar de fazer aquela mini compra de emergência me deparo com uma cena estranha. A atendente do caixa tirava uma carne de terceira com as mãos, de uma embalagem lacrada e jogava sobre onde normalmente fica a esteira de compras (nesse mercadinho não há esteira). Sim, aquilo pra mim inicialmente parecia uma atitude de pouca higiene, imunda, bizarra. Eis que noto que a dona das compras era uma garotinha de cerca de 13 anos com uma camisa de colégio do governo meio suja e comprava macaxeira e carne para sua família com alguns trocados na mão.
Nada ali seria tão anormal se não fosse o fato da atendente do caixa estar tirando carne da embalagem que a garotinha levaria. O motivo era simples: a garotinha não tinha dinheiro o suficiente para o valor total daquela compra, era uma diferença de cerca de 1,15 reais. Ao recontar o valor, a atendente mais uma vez ia retirar um pouco de carne para chegar ao valor exato. Quando comecei a entender a situação pensei em intervir ali ou esperar para ver o que acontecia. A garotinha não mostrava qualquer reação facial, totalmente passiva à situação e certamente com muita vontade de sair dali. Decidi ficar quieto e foi aí que surgiu outra atendente, certamente mais experiente, viu a cena e fez o mais coerente e sensato. Ignorou a ínfima diferença de valor, devolveu o pedaço de carne retirado da compra e a garotinha foi embora com o jantar de sua família.
Você pode agora estar pensando na maldade dessa inexperiente atendente em fazer isso com uma garotinha, mas era óbvio que a atendente também era mais uma vítima ali. Qualquer centavo de diferença poderia gerar uma demissão. Seu gesto era uma representação mecânica do papel que lhe foi incumbido. Qualquer reação que eu tivesse ali poderia gerar um burburinho com a gerência do estabelecimento e uma demissão não seria algo distante. Ou mesmo, essa mesma gerência poderia se manifestar tirana e julgar que aquilo era uma atitude correta e dentro de suas normas. Aqui é bastante comum ver atendentes de supermercado menores que vem do interior pernambucano em busca de melhores condições na capital e acabam se escravizando para pequenas redes de supermercado. Certamente essa era mais uma delas.
Depois dessa cena, paguei minhas compras e veio um sentimento de frustração, de inércia, de “que porra de mundo vivemos?”. Saber que tão iguais julgamos e pregamos ser, mas tão diferentes somos no mundo real. A igualdade só está na Constituição. E essa diferença é alimentada pelo status quo, pelo que temos, pelo que oferecemos e pelo que nos oferecem. “Ah… sêu socialista utópico que papo mais clichê!”. Julgue o que quiser, mas são fatos assim que nos fazem repensar a maneira de agirmos um com os outros e compreender que este mundo está uma merda e que não são esmolas que te farão bom ou ruim e sim as atitudes que permeiam seu dia-a-dia.
Se distanciar da sociedade é a xilocaína da sua consciência auto-clean. Enquanto você finge não ver ao seu lado, o mundo assíntota ao infinito da sua ignorância. O poder invade sua casa, te traz esperanças “umbiguistas”, promessas e mais promessas. Assim, sua incapacidade de saber o que está ao seu redor te tornará mais uma atendente mecânica. Porém, consciente de que sua incapacidade nasce de si e não do meio.